segunda-feira, 14 de março de 2011

Folia, identidade e cidadania



Nascido e criado no bairro da Torre, cresci em meio a um intenso caldeirão cultural: quadrilhas, ranchos, ala ursas, FalaTorre, tribo dos Africanos, Bandeirantes, Malandros do Morro, Lapinhas, batucadas e outras manifestações artístico-culturais de diferentes matizes. As mudanças sócio-econômicas e espaciais porque a cidade passou entre os anos 1980 e o início dos 1990, bem como a força da mídia televisiva do centro-sul, enfraqueceram tais manifestações que perderam visibilidade, embora nunca tenham morrido. Chegou-se ao ponto de um repórter de tv afirmar que João Pessoa era uma cidade que não tinha carnaval.
As Muriçocas de Miramar e o projeto Folia de Rua ganharam dimensão inesperada, num contexto discursivo adverso, e se incorporaram às tribos indígenas, escolas de samba e blocos de frevo. Agremiações como o Picolé de Manga, Virgens de Tambaú, Muriçoquinhas, Muriçocas e Cafuçu levam às ruas dezenas de milhares de pessoas, todos os anos. Somando as 40 agremiações do Carnaval Tradição com as cerca de 90 que compõem o Folia de Rua e demais agremiações não registradas oficialmente, temos um exército de produtores de cultura, cidadãos ativos e participantes da vida da cidade e que vivem, em bairros nobres, de classe média ou da periferia, buscando expressar tradições ancestrais e as diversas facetas atuais da vida de nossa urbis. Talvez estejamos falando do maior movimento cultural local.
Engana-se quem entende o carnaval apenas como “folia”. A Bahia e Pernambuco já provaram a sua força como afirmativa do “ser baiano” ou “ser pernambucano”, resgatando raízes e projetando o futuro, gerando auto-estima elevada. Ao mesmo tempo, representa a produção e comercialização de bens simbólicos, gerando emprego e renda, promovendo bem estar econômico para muitos. Por último, e talvez sua maior contribuição: formar sujeitos-autores da cultura. Tornar pessoas comuns, que tem sua cidadania desrespeitada cotidianamente, em indivíduos ativos, que experimentam novas identidades, recontextualizam comportamentos e redefinem conceitos.
Carnaval nâo é adereço, é vida criativa. Portanto, coloquemos a nossa fantasia e vamos foliar. Estaremos fazendo um bem danado para nós e para nossa cidade!

Publicado no Correio da Paraíba em 02/03/2011.

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