quinta-feira, 21 de julho de 2011

A GUERRA DE DEUS CONTRA OS GAYS OU O PERIGO DO FUNDAMENTALISMO


A guerra declarada de parcela dos líderes religiosos evangélicos contra o PL 122 (projeto de lei que criminaliza a homofobia), contra o “kit anti-homofobia”, a tentativa de proibir as marchas pela descriminação da maconha, os ataques de ordem moral de parcela da Igreja Católica à candidatura de Dilma Roussef à Presidência da República, e a demonização das religiões afro-brasileiras por padres e pastores televisivos são apenas alguns dos exemplos que podemos dar da radicalização cada vez mais presente na sociedade brasileira, em torno de questões de ordem moral e comportamental, em que valores da modernidade são atacados em prol de valores tradicionais, do mundo pré-moderno. Em João Pessoa, recentemente, até monumentos postos em praça pública foram envolvidos nesta “ira”.

Parafraseando Marx, podemos dizer que um fantasma ronda o mundo, o fantasma do fundamentalismo. Este espectro assombra há algum tempo o hemisfério norte e agora tenta exercer seus efeitos fantasmagóricos sobre o hemisfério sul, incluindo o Brasil, país multicultural por natureza. A historiadora Karen Armstrong na obra “Em nome de Deus” identifica o resurgimento no final do século XX de uma devoção militante, popularmente conhecida como “fundamentalismo”, dentro das grandes tradições religiosas, como o cristianismo, o judaísmo e o islamismo, cujas manifestações são às vezes assustadoras.

Ela dialoga com Marty e Appleby que afirmam ser todos os “fundamentalismos”, com suas diferenças, obedientes a um determinado padrão: São formas de espiritualidade combativas que enfrentam inimigos cujas políticas e crenças secularistas parecem contrárias à religião. Os fundamentalistas não vêem essa luta como uma batalha política convencional, e sim como uma guerra cósmica entre as forças do bem e do mal. Temem a sua aniquilação e procuram fortificar sua identidade sitiada através do resgate de certas doutrinas e práticas do passado. Eles se afastam da sociedade e criam uma contracultura. Sob orientação de líderes carismáticos, refinam o “fundamental” a fim de elaborar uma ideologia que fornece aos fiéis um plano de ação, lutando e tentando ressacralizar um mundo cada vez mais cético.

Portanto, aos fundamentalistas pouco interessa a liberdade de expressão, de manifestação ou os direitos individuais de cidadãos que pagam impostos como quaisquer outros se os valores que pregam ou representam vão de encontro ao comportamento “puro” que defendem. Se sentem ofendidos por ouvirem opiniões diferentes e querem, a ferro e fogo, impedir as manifestações divergentes quanto à questões de ordem moral e comportamental, principalmente.

O Brasil é uma república que, depois de muitas décadas de luta social, começa a se construir, embora com muitas imperfeições, em uma democracia de massas, plural. Esta se assenta no respeito aos direitos de todos os cidadãos, individualmente ou em grupo, que sustentam o Estado, pagando impostos. Nosso estado é laico, portanto um ou mais livros sagrados representam o ponto de vista de parcelas (minoritárias ou majoritárias) da sociedade, porém não podem se impor ao conjunto dos cidadãos que tem o direito de organizar suas vidas como bem quiserem, desde que não firam o direito de outros indivíduos. E não podem ser ofendidos ou agredidos por isso.

Um dos fundamentos da democracia atual, marcadamente plural e diversa, é a necessidade do diálogo, da negociação. Como afirma o sociólogo Anthony Giddens, “onde a conversa deixa de existir, a violência tende a se iniciar”, o que significa que a proliferação do fundamentalismo é um risco para a sociedade brasileira, na medida em que líderes religiosos intolerantes procuram reerguer muros, resgatar conflitos e destruir pontes entre os diferentes grupos sociais.

Na verdade, não estamos vendo de fato uma guerra de “Deus” contra os homossexuais e outros cidadãos ou grupos que destoem do perfil de comportamento contido na Bíblia, pois identificamos muitos líderes religiosos abertos ao diálogo, à compreensão, ao ecumenismo, ao perdão e à tolerância. Vemos, sim, um movimento reacionário de parcelas minoritárias da sociedade que procuram estabelecer estados mentais beligerantes e sonham em recriar “guerras santas”, cuja sequência, a história já mostrou, são processos inquisitórios, em que se eliminam os diferentes e instala-se o totalitarismo.

Felizmente, decisões recentes como as do Supremo Tribunal Federal apontam para um outro caminho: o do reconhecimento do Estado laico e dos direitos individuais. Instituições da sociedade civil como a OAB, movimentos sociais e até entidades religiosas como a CNBB e muitas associações evangélicas felizmente não tem se associado a tais movimentos reacionários. Nossos políticos, nossos comunicadores de rádio e tv, educadores e outros atores sociais também deveriam seguir o mesmo caminho e se afastar da visão manipuladora e maniqueísta de uma idade de trevas que busca renascer. Estes, por sinal, serão algumas das primeiras vítimas do processo.

O fundamentalismo representado por figuras como o Aiatolá Kolmeini, o pastor Silas Malafaia, o Bispo Sérgio Von Helde, o líder judaico Ovadia Yosef, Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, dentre outros, representa um mal a ser combatido em todas as intâncias da vida social. O Brasil é um país multicultural, multireligioso, diverso e esta é sua melhor característica. Para aqui, vieram muitos que fugiram de guerras, perseguições as mais diversas.

Portanto, vamos abrir nossos olhos e combater os diversos fundamentalismos que, com seus desejos de “pureza” (espiritual, cultural e racial), pretendem nos jogar numa eterna idade média. Este combate deve se dar não pelas armas mas pelo fortalecimento da democracia, do estímulo ao diálogo, da ampliação da esfera pública, da promoção da diversidade, enfim, do favorecimento do encontro de culturas (e não o desencontro) e do pensamento crítico. Temos que agir assim, derrubando os muros que separam os indivíduos e gerando um ambiente de convívio social e de paz, tão necessário à proliferação da cidadania e ao progresso científico e social.

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